Ela nem havia percebido, mas estava cansada de viver sem sentir. E foi naquele domingo à tarde que tudo passou a fazer sentido. Ela colocou La valse dês monstres para tocar e o mundo não era mais o mesmo. Ela passava a perceber. De repente, a falta de companhia não representava mais solidão, mas sim a oportunidade de estar a sós e encontrar a melhor das companhias. A sensibilidade com as pequenas coisas que lhe pareciam banais anteriormente mudava de figura. Tudo tinha um significado complexo. O mundo não girava mais em torno do seu umbigo. A senhora que esperava o metrô estava com a feição apreensiva. Ela segurava com as duas mãos o cabelo recém escovado para que o penteado não se desfizesse com a ventania do trem apressado. O executivo que se jogou do último andar do Terraço Itália não representava apenas um suicídio. “Só sobrou uma massa de gente no chão. Todos que passavam na rua naquele momento sujaram suas roupas com sangue”, disse o taxista. A morte não era o fim, mas a fuga de alguém que não estava preparado para viver. As três gerações de uma família boliviana que cantavam e tocavam flautas na calçada do MASP, não eram coadjuvantes de um passeio de um domingo, eram os atores principais daquela cena, dignos de aplausos, de um olhar profundo de gratidão nos olhos. O prodígio violinista de 10 anos que tocava perfeitamente na orquestra de câmara Cantilena Ensemble não era uma criança. O som puro que saia do violino contagiava cada uma das células dela fazendo com que um arrepio fino subisse pela espinha até que atingisse a cabeça. Ela finalmente permitiu que as lágrimas caíssem de uma vez, silenciosas. O aniversário da amiga árabe, não era apenas um desculpa para cantar parabéns e comer docinhos, era a situação perfeita para perceber como aquela família parecia unida. As flores vendidas na calçada, murchas pela poluição, não eram apenas flores feias e cinzas, elas eram vítimas de uma sociedade que não sabe apreciar as coisas mais belas. As buzinas, o trânsito, os carros não eram mais incômodos, pois agora tocava Pas si Simple. Eles se tornavam parte da fotografia da cidade. Desordenados, apáticos, inconscientes. Competine dún autre été. As músicas de Yann Tiersen não eram apenas músicas, mas a faziam sentir-se personagem de Jean-Pierre Jeunet. Era possível fazer arte sem ser artista...
domingo, 21 de junho de 2009
Aquele Clique Repentino
Ela nem havia percebido, mas estava cansada de viver sem sentir. E foi naquele domingo à tarde que tudo passou a fazer sentido. Ela colocou La valse dês monstres para tocar e o mundo não era mais o mesmo. Ela passava a perceber. De repente, a falta de companhia não representava mais solidão, mas sim a oportunidade de estar a sós e encontrar a melhor das companhias. A sensibilidade com as pequenas coisas que lhe pareciam banais anteriormente mudava de figura. Tudo tinha um significado complexo. O mundo não girava mais em torno do seu umbigo. A senhora que esperava o metrô estava com a feição apreensiva. Ela segurava com as duas mãos o cabelo recém escovado para que o penteado não se desfizesse com a ventania do trem apressado. O executivo que se jogou do último andar do Terraço Itália não representava apenas um suicídio. “Só sobrou uma massa de gente no chão. Todos que passavam na rua naquele momento sujaram suas roupas com sangue”, disse o taxista. A morte não era o fim, mas a fuga de alguém que não estava preparado para viver. As três gerações de uma família boliviana que cantavam e tocavam flautas na calçada do MASP, não eram coadjuvantes de um passeio de um domingo, eram os atores principais daquela cena, dignos de aplausos, de um olhar profundo de gratidão nos olhos. O prodígio violinista de 10 anos que tocava perfeitamente na orquestra de câmara Cantilena Ensemble não era uma criança. O som puro que saia do violino contagiava cada uma das células dela fazendo com que um arrepio fino subisse pela espinha até que atingisse a cabeça. Ela finalmente permitiu que as lágrimas caíssem de uma vez, silenciosas. O aniversário da amiga árabe, não era apenas um desculpa para cantar parabéns e comer docinhos, era a situação perfeita para perceber como aquela família parecia unida. As flores vendidas na calçada, murchas pela poluição, não eram apenas flores feias e cinzas, elas eram vítimas de uma sociedade que não sabe apreciar as coisas mais belas. As buzinas, o trânsito, os carros não eram mais incômodos, pois agora tocava Pas si Simple. Eles se tornavam parte da fotografia da cidade. Desordenados, apáticos, inconscientes. Competine dún autre été. As músicas de Yann Tiersen não eram apenas músicas, mas a faziam sentir-se personagem de Jean-Pierre Jeunet. Era possível fazer arte sem ser artista...
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